É interessante como as coisas acontecem e como o que fizemos no passado acaba, de uma forma ou de outra, encontrando-se com nosso presente. E isso muitas vezes é bom! Algumas pessoas sabem que dos 15 aos 17 anos escrevi um livro chamado PAVOR - minha primeira experiência real como autor. Elaborado a quatro mãos (já que a idéia era partilhada por meu amigo e co-autor José Guilherme Marcon), a história era uma narrativa policial que refletia nossa visão de serial killer um tanto embaçada pelo cinema americano da época, c

om uma mistura entre suspense, terror e pitadas de anormalidades e surpresas que a maioria de alguns livros que lia naqueles anos não continha. Conforme passam os anos, nos tornamos mais críticos em tudo (com naturalidade de quem conhece mais sobre as coisas) e o ótimo da época não recebe mais a mesma definição. No entanto, como um primogênito, é amado.
Passados 11 anos desde sua edição, eis a surpresa! O dito livrinho retorna a minha mente, não apenas pelas minhas lembranças, mas por fatos que eu não esperava. Após ter descoberto que o danadinho tinha ido parar na Itália abri um sorriso de orelha a orelha. “Nossa, Itália!” fiquei suspirando durante quase duas semanas. Uma moça havia comprado o livro aqui em Caxias do Sul, e dera de presente a sua filha que gostava de suspense e que mora lá.
Certa vez cheguei em casa, e havia uma carta em cima da mesa do meu quarto. Escrita com letras desenhadas e com certas tonalidades de cor, era de uma menina de 12 anos (quase a idade do livro) que me mandara sua história como aspirante a escritora. Na carta dizia que havia lido o livro na escola e pedia informações de como eu o tinha escrito e falava de seus próprios textos. Até hoje é um mistério como ela tinha meu endereço morando quase do outro lado da cidade.
Nos últimos dias fui tomado pela idéia de escrever de novo. Desde que me dediquei ao mundo empresarial e achava que tinha jeito para empreendedor nunca mais dei bola para “essas coisas de escrever”. Mas como todo sono, por mais longo que seja, acordamos. E foi isso que aconteceu, como um despertar repentino onde achamos que dormimos por tempo demais e é hora de arregaçar as mangas e correr em busca do que realmente é importante. Entendam, adoro minhas empresas, adoro metas e principalmente desafios, mas ter esquecido o que me inspirava primordialmente foi um erro. Com essa sensação na cabeça, dois fatos novos aconteceram. Andava pelo Espaço MultiCultural quando fui tomado de assalto por uma das professoras me avisa que a sua aluna havia comentado sobre PAVOR (pois o vira na estante de nossa biblioteca após eu levar alguns exemplares). Mais surpreendente foi o comentário da aluna: esse foi o primeiro livro que eu li na vida sem figuras até o fim! Até a ficha cair, acredito que demorei umas boas 12 horas. “Poxa! Poxa!”
Dois dias depois fui ver se o antigo site sobre PAVOR, estava no ar. Um que fizemos no Word sem mesmo saber muito sobre sites e quando a internet e computadores particulares eram novidades (quem tinha um era destaque!). Não encontrei o site, mas encontrei algo que me deixou entusiasmado. Estava escrito em uma página: Estante Virtual, PAVOR, Editora EDUCS, 1997, Estante Literatura Brasileira, Cadastrado em 11/06/2008, 133p., Formato Brochura. Pode parecer bobagem, mas sim, Pavor estava sendo vendido On-Line (e eu nem sonhava).
Estou contente. Um livro é mais que páginas envoltas em uma capa interessante e sua história não pertence unicamente ao seu autor. Cada livro realmente tem uma história própria. Cada exemplar. É mágico pensar em quantas coisas possam ter acontecido em volta dessa força artística criada pelo homem.
Mesmo sendo uma experiência sutil como escritor, PAVOR me prova que o livro é algo insuperável e uma forma de arte eterna. E novamente recosto minha cabeça em meus travesseiros durante a madrugada, olhando para o teto e imaginando. Mais importante que a história que narramos no livro, são as histórias reais que aconteceram em volta dele. Quantas mais? Quantas?