O Labirinto


I
O vento deslizante pelos meandros arbóreos
farfalhante, estilhaços de luz, contornando esquinas
vegetais, na obliqüidade da tarde em que vagueio
ensimesmado e triste, emparedado: torpor e vacuidade.

Deve haver uma saída, em algum lugar distante.

Entre paredes maciças, por caminhos infindos.
Arfando, sôfrego, indeciso, lerdo, deambulando.
O céu a intervalos, o tempo em frangalhos.
As alamedas estreitas, abafadas, úmidas, sombrias.

As analogias impraticáveis, os diálogos estancados.
Uma alteridade de estranhamentos indevassáveis.
Hermetismo. Pensamentos insondáveis. Abandono.
É difícil avançar pelas aléias despistadoras.

Signos truncados, cul de sac , sinais trocados.


II
Um labirinto infinito que termina quando recomeça
Que é o princípio de seu próprio fim: eterno!
Um desvão secreto, um epicentro inalcançável
Enquanto, perdido, ouço a própria voz distante.

Aonde me levam estas trilhas tortuosas?

A que desertos, desterros, a que ares represados?
Tantos rostos irreconhecíveis, corpos ausentes!
Quantos atropelos, quantas negações insidiosas!
E eu a errar por espaços contidos, viciados.

Qual a direção deste vento aprisionado?

Os muros bifurcam-se, fecham-se, multiplicam-se
em outros muros mais adiante: são os mesmos
no círculo vicioso de uma vida programada
que devora e recicla, ad infinitum, sua mesmice.
[]
O LABIRINTO
Poema de Antonio Miranda

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